Repostagem do "Zephyrus Tarot" - Com quantas escolas se faz um Lenormand?


Maravilhoso texto escrito em homenagem
ao Dia do Baralho Lenormand | 25 de Junho.

Com vocês, Marcelo Bueno.

Com quantas escolas se faz um Lenormand?

Como sempre fui um curioso, com a propagação da Amazon em vários países, não foi difícil, meio na orelhada, comprar alguns livros franceses sobre o Petit e o Grand Jeu Lenormand – ainda que eu não leia nada de francês (pareceu que seria mais fácil do que em alemão). Meio ao acaso, também comprei nessa época o único título em inglês que encontrei e hoje sei que é uma grande referência, escrito por Erna Droesbeke von Enge. Por conta dessas novas fontes, descobri que o Navio não representava “Saúde” ou “Mudança” e que os Pássaros estavam longe de representar “Pequenos Gorjeios” em alguma leitura para lá do Equador.

O primeiro impacto disso foi uma certa insegurança ao olhar a Montanha num jogo e ficar na dúvida se considerava o atributo do “Obstáculo” ou da “Justiça”, mas tudo é uma questão de escolha e eu, ainda por um tempo, optei pela leitura com a qual estava mais familiarizado.

Não lembro quando conheci o Alexsander Lepletier, ainda nos tempos do Orkut, mas depois disso se tornou muito mais frequente ler (e conversar) sobre as interpretações que eram encontradas na Europa. Foi numa dessas trocas que eu usei despretensiosamente as expressões “Escola Brasileira” e “Escola Europeia” para pontuar essas diferenças e até hoje ele diz que sou o ‘pai’ da terminologia, o que me diverte.

Fato é que, mesmo nessa ocasião, não havia o volume de informações que encontramos hoje em dia. E eis que a Escola Europeia foi fragmentada em Escola Francesa, Escola Alemã, Escola Belga e o que mais ainda pode vir pela frente.

Do meu ponto de vista isso é um ganho, pois você tem a chance de conhecer coisas novas e fazer opções – inclusive combinando escolas, quando isso é pertinente. Já conversei com uma pessoa que depois de estudar os conceitos do Velho Mundo, disse preferir o Lenormand Tupiniquim –  e não há nada de errado nisso.

Não sei se muitos intérpretes do Lenormand não conhecem direito o Tarot ou se esqueceram que há diferentes interpretações para os Arcanos Menores, por exemplo. Alguns preferem o Waite de raiz, outros, o Crowley moleque, e ainda os que seguem diferentes linhas de raciocínio e baralhos temáticos. O que eu sempre digo quem me questiona a respeito é “abrace uma escola e seja feliz”.

É ridícula a necessidade de “ter razão” em uma conversa entre profissionais quando se trata de discutir os atributos de algumas cartas.

Ponderações, no entanto, são sempre bem vindas com uma atitude humilde de que quem contesta, a receptividade de quem é contestado e a cabeça aberta de ambos, pois o que importa é se o atendimento ao cliente é funcional, ou seja, se o método que utilizo, assim como os atributos que tenho em mente, são eficientes em avaliar uma situação prática e oferecer caminhos.

Para o consulente a diferença é irrelevante. Alguns perguntarão se a escola é essa ou aquela, da mesma forma que me perguntam qual o baralho que eu uso. Qual o propósito da consulta? Se for discutir simbologia, faça um curso. Se for aconselhamento, relaxe e deixe o resto por minha conta.

Fora isso, tudo é um grande jogo de ignorância e vaidades. Eu, sinceramente, já não me assombro mais com as bobagens que leio e ouço de pessoas que manipulam esse oráculo querendo desmerecer uma escola ou método com a intenção de jogar confetes sobre si. Pior, com pessoas que falam da Escola Brasileira como se fosse algo de gente sem acesso aos “verdadeiros” ensinamentos, mas que até bem pouco tempo viviam dessas referências. #euseioquevocefeznoveraopassado

Enfim, o Lenormand pode ser um oráculo fascinante, mas depende, como qualquer outro oráculo, do grau de interesse de quem o interpreta para ser algo raso e fofoqueiro ou tão completo quanto a necessidade do momento. Não perturbe se um faz leitura livre e outro atribui valores por casa, se joga com 3, 5, 9 ou 36 cartas, se divide a Mesa Real em passado, presente em futuro, em quadrantes ou se os atributos das cartas mudam dependendo da distância entre elas e a carta do consulente. Faça o seu trabalho e não se esqueça que as cartas funcionam de acordo com as regras de quem conduz a leitura.

No Brasil ainda são muitas as influências que criam mitos desnecessários e estereótipos altamente prejudiciais à classe. A própria terminologia ‘baralho cigano’, a meu ver, deveria ser abolida. Lá fora também se adota a expressão gypsy cards, mas para diferentes sibilas e sempre com o intuito meramente comercial.

Nas comunidades do FB e fóruns presenciais, as pessoas deveriam pedir menos ajuda para interpretar os jogos ‘dazamigas’ sobre afeto e investir mais na ampliação de repertório. Um cara apareceu dia desses em um grupo tentando achar padrões matemáticos e, certo ou errado, um monte de gente ficou indignada. Vivemos em um mundo em que as pessoas se ofendem por muito pouco, infelizmente.

Ao invés de escrever sobre uma carta, como fiz com a Raposa no ano passado, resolvi deixar esta contribuição para o #JourneeLenormand ou Dia do Baralho Lenormand de 2014. Em alguns momentos acho mais interessante refletir sobre posturas do que exibir conhecimento.

Para quem não sabe, a data foi escolhida por ser aniversário de falecimento de Mlle Lenormand – aquela que não inventou o baralho. Outras informações aqui ou aqui.

quarta-feira, 25 de junho de 2014

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