Lenorgram, by Chris Wolf

Puxando o Petit Lenormand para mais perto, vendo-o sempre como bem contemporâneo e presente em nosso cotidiano, trago esta versão das cartas vistas através da rede social do Instagram.


O "Lenorgram" está disponível gratuitamente para estudo e leituras pessoais aqui

 São cartas feitas com fotos selecionadas com cuidado e que foram submetidas ao filtro "earlybird" do Instagram. O tamanho de cada imagem é de aproximadamente 8,30 cm x 8,30 cm. As cartas estão numeradas de 01 a 36 e cada uma delas possui indicada a carta de baralho correspondente no canto inferior direito.

Para quem não possui ainda um deck próprio ou gostaria de ter um pra estudo, fique à vontade para imprimir as cartas e utilizá-las. Neste caso, recomendo a impressão das cartas em papel de 230gr ou superior e no tamanho máximo de 8cm x 8cm.  Por favor, apenas não imprima para venda! ; ) 

Disponibilizei ainda a arte do verso das cartas e uma carta bônus, a de número 12, tanto na versão "Os Pássaros" como na versão "As Corujas", para que possam escolher. 


Boas leituras e bom estudo!

Olhando carta a carta...

- E então...
As cartas 'HUMANAS' e a única carta que, ao meu ver,
representa efetivamente um sentimento, algo abstrato.

Eu, daqui, pensando em matéria de simbolismo e analisando as cartas do Petit Lenormand reparei que as cartas podem ser classificadas (claro!) e, mais ainda, agrupadas para um melhor entendimento simbólico.

Falando de grupos simples, aqueles que saltam aos olhos logo a primeira vista, percebo que excetuando-se as cartas ditas HUMANAS, ou melhor, as que representam "pessoas" - 28 'Cavalheiro', 29 'Dama' e 13 'Criança' - e exceto também a única que, ao meu ver, representa um sentimento em primeiro plano, algo que é abstrato por si só - carta 24 'Coração' - temos exatos 16 símbolos ditos NATURAIS e 16 símbolos ditos CULTURAIS (criados ou, no mínimo, tocados e transformados pelo Homem).

A definir, temos como "Culturais" o que definiu bem Neri de Paula Carneiro, "o Homem não se limita ao mundo natural; ele o transcende e o transforma. Transcende porque tem expectativas que não se limitam ao mundo como ele se apresenta e nem à sua materialidade. Transforma porque o recria constantemente, imprimindo sua marca: a marca da cultura.

Em razão disso é que dizemos que o Homem se humaniza produzindo seu mundo, gerando sua marca cultural ou as diferentes manifestações culturais. Ou seja, diferentemente de outros seres, o humano se autoproduz reproduzindo o meio que o circunda; recria o mundo natural e o já criado, criando novo significado e novas formas de aproveitamento das realidades já existentes."
(1)



Agrupar desta forma, ao meu ver, não é apenas estético ou simbólico. Na minha forma de jogar, as cartas ligadas
NATURAIS são relacionadas ao instinto, a vida em seu sentido primário. Já as cartas CULTURAIS falam mais do homem em sociedade, racional, ligado as convenções sociais, envolto nas ações necessárias.

Desta forma, se num jogo caem mais cartas
NATURAIS o foco deste mesmo jogo fala do que é mais profundo ao consulente, o que é mais sentido, instintivo... Esta classificação pode direcionar a resposta em cima da pergunta feita, sendo mais um dado a se considerar numa leitura.


Aqui, vale um adendo: reforçando a questão a respeito da criação do Baralho Petit Lenormand NÃO ter sido feita pelos ditos ciganos europeus, que em sua grande maioria viviam nômades e tinham outros valores de cultura e história, das 16 cartas ditas culturais, a grande maioria delas não representam símbolos do cotidiano comum deste povo, como NAVIO, CASA, TORRE, ÂNCORA, etc. 

Vamos a elas.


 As 16 Cartas NATURAIS (aqui, divididas em sub-grupos) 


- REINOS VEGETAL E MINERAL -
 



 - REINO ANIMAL -
 
 


- CORPOS CELESTES -
 

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  As 16 Cartas CULTURAIS  




 

 
1 Artigo "Uma Antropologia da Cultura* III: Cultura: a criação humana"
* DAS CARTAS: todos os direitos de imagem reservados à Editora A.G. Müller, Suíça.


© Todos os direitos reservados.

Palestra 'Ampliando horizontes com os símbolos'

.

Material em Slides da palestra realizada por Chris Wolf no dia 18 de Junho de 2013, no "II Encontro Carioca de Baralho Cigano", que ocorreu na Universidade Veiga de Almeida (UCAM), Ipanema - Rio de Janeiro/RJ.

 * Licenciado por Creative Commons
  © Todos os direitos reservados

Ampliando conhecimento!

De vez em quando me pego analisando o meu oráculo, o Baralho Petit Lenormand. Olho lâmina a lâmina, como se isso me fizesse conhecê-lo no íntimo, como se eu quisesse "absorver" tudo o que cada carta possui. Para mim, ali, tudo faz sentido. Vem a mente os significados intrínsecos de cada carta, em seus desenhos... É estranho, mas eu vejo um mundo em cada uma delas. 

"O ser humano tem a habilidade inata de pensar em termos de símbolos, que deriva, fundamentalmente, da tendência à representação. (...) A mente humana é misteriosa, um universo em expansão e sem fronteiras dentro de nós. A memória e os pensamentos conscientes dão uma idéia de onde começa a mente, mas seus limites permanecem desconhecidos. Ademais da capacidade de evocar pensamentos, construímos nossa existência pelo armazenamento das experiências vividas - um repositório se extende para muito além da consciência. Em níveis ainda mais profundos, a mente abrange o que o psiquiatra Carl Gustav Jung chamou de 'inconsciente coletivo', uma dimensão psicológica hereditária, da mesma forma que o corpo herda suas características físicas." (1)
 
Creio que as correlações que fazemos vem sempre em uma escala: o significado primevo traz as sensações que ele evoca; depois disso, a amplitude se instala e vem a mente as coisas semelhantes nomeadas que conhecemos, que nos são próximas; ampliamos mais e começamos a unir as coisas nomeadas entre si, dando um terceiro significado ou mais...

Por exemplo: ao fazermos um traçado num papel de uma linha que se curva até chegar a outra ponta e fechar em si nos faz criar um CÍRCULO. Quase que imediatamente no momento em que o fechamos acessamos nosso inconsciente coletivo e lembramos também de muitas coisas. Partindo do círculo, eu me lembro:




 * da BOLA > A bola traz a DIVERSÃO > A diversão da bola traz o GRUPO DE AMIGOS >>> ...

* do ANEL > o ANEL traz o PRESENTE > o presente do anel traz o COMPROMISSO >>> ...

* do BURACO > o buraco traz o ESCURO > o escuro do buraco traz o MISTÉRIO >>> ...

* do OUROBOROS > o ouroboros traz o CICLO > o ciclo do Ouroboros traz o ETERNO >>> ...

* da LUA > a lua se faz CHEIA > a lua cheia traz a BENÇÃO >>> ...

* da RODA > a roda traz o MOVIMENTO > o movimento da roda traz o SEGUIR EM FRENTE >>> ...

* da CIRANDA > a ciranda traz a UNIÃO > a união da ciranda traz a IRMANDADE >>> ...

E não pára por aí! Ter uma boa "biblioteca interna" ajuda bastante nesta abstração e na correlação entre os símbolos e os significados possíveis que surgem durante a leitura de um oráculo. Isso acrescenta uma riqueza de informação à leitura, sendo possível passar o que a carta em si quer dizer para qualquer público, repassando ao cliente da melhor forma.

Ah, sim... É preciso um certo grau de abstração, mas essa mesma abstração deve estar fundamentada no conhecimento e no entendimento. Deste modo, a análise e estudo destes símbolos e arquétipos é de grande importância para o resgate simbólico e para compreensão dos signos que surgem também nos oráculos e, consequentemente, para uma compreensão mais profunda de si mesmo. (2)


* Como ampliar a visão dos símbolos


O simbolismo do Baralho Petit Lenormand é próprio e muito próximo de nós também, fazendo com que ele seja um oráculo do cotidiano. Seus simbolos são atuais até hoje, pois mostram coisas, objetos e itens presentes em nossa vida e facilmente entendíveis e transponíveis por seus leitores. O estudo das lâminas e dos símbolos do Baralho Lenormand amplificam os significados e devem sempre ter como ponto de referência o momento onde foram criados e o que signficavam áquela época. Ao meu ver, não se pode fugir da matriz simbólica, tampouco se limitar a ela. 

"O ato de transpor os símbolos para outras esferas, principalmente para o cotidiano, nos faz entender como um ou outro símbolo e o seu significado pode 'aparecer' no dia-a-dia, aumentando a percepção e o conhecimento empírico sobre o mesmo, ampliando visões. Isso pode ser percebido, por exemplo, ao se 'vivenciar' os arquétipos e simbologias dos oráculos ou trazê-los para um meio que você domine e/ou conheça bem. Iremos lidar com vários textos neste sentido nos próximos meses aqui no bloguinho, levando o oráculo que uso, o Baralho Petit Lenormand, a 'visitar' outros mundos." (3)  


* DICA: caminho 'via de mão dupla'

Experimente também correlacionar não os símbolos do oráculo que usa à algo, mas a fazer o caminho inverso. Isso vale muito ao estudar oráculos onde o simbolismo é mais restrito, como as Runas, por exemplo.

As runas são caracteres de um alfabeto hoje praticamente esquecido, que com o passar do tempo adquiriram simbolismo mágico e divinatório. Uma delas, a runa ISA (foto à esquerda) é representada com um traço vertical - desta forma, | - e siginifica a imobilidade causada pela neve, a contrição, as situações fora do seu controle que te forçam a uma parada total. É um momento de pausa, reflexão, recolhimento - inclusive de suas energias. 

Por ser uma runa do gelo, você poderia enxergá-la como uma estalactite (foto abaixo), que nada mais é do que água e destritos acumulados, parados, presos, congelados. Algo comum nos países germânicos de onde vem as Runas, mas que muitas pessoas não sabem exatamente o que é.

Porém, se este símbolo é desconhecido, podemos pensar em outras coisas que nos causem a mesma sensação, ou seja, procurar um simbolismo conhecido para apreendermos o que quer nos dizer esta runa. Pictoricamente, por ser um traço ( | ), podemos pensar em PAREDES, BLOQUEIOS que impedem o avançar; algo que se COLOCA EM NOSSA FRENTE IMPEDINDO A VISÃO, o que causa uma maior reflexão interna, o "olhar para dentro". Podemos pensar na questão do GELO e lembrar que ele, às vezes, REFLETE, tal como um ESPELHO, que traz o "olhar para si" e a reflexão que isso causa.


1 "A Linguagem dos Símbolos", de David Fontana (Publifolha)
2
Artigo "Oraculando", publicado originalmente neste blog

3 Artigo "Ato de (re)criação!", publicado originalmente neste blog



Escrito originalmente em 25.04.13
© Todos os direitos reservados.

Ato de (re)crição!

Como já falamos antes a respeito dos oráculos, qualquer objeto, moeda, cartas, dentre outros, podem dar uma resposta (afirmativa ou negativa, e também outros tipos de respostas) desde que exista um padrão já determinado no sistema de leitura.

O ato de interpretar tais respostas e estabelecer sentido, passando adiante a mensagem, é possível por conta da interpretação dos símbolos contidos no oráculo consultado. A interpretação dada pelo oraculista vem atráves de intuições e também do entendimento do signo que se apresenta na hora do jogo. Vem daí o entendimento que, em se estudando a simbologia e os métodos de um oráculo, é possível interpretá-lo. (1)

A curiosidade humana é muito do que nos faz diferentes, e o interesse pelo oculto e pelo futuro existe desde os dias mais antigos... Oráculos famosos eram consultados por reis e plebeus, sem distinção. Porém, é preciso nunca esquecer da importância dos símbolos para nós até hoje. Como instrumento altamente imagético e simbólico, o oráculo 'fala' conosco através do que o psicanalista Carl Gustav Jung chamou de inconsciente coletivo, uma linguagem antiga e intuitiva por ser rica em entendimento intrínseco.

Por isso mesmo, além de poder ser utilizado como arte divinatória, um oráculo traz em si inúmeras possibilidades de amplitude de conhecimento e pode ser, facilmente, usado para uma jornada de melhoria e engrandecimento pessoal.


* Novas formas e visões

- Foto por Donnaleigh de la Rose -
Uma das várias formas de se lidar com um oráculo como aprimoramento pessoal é o ato de transpor os símbolos para outras esferas, principalmente para o cotidiano. Entender como um ou outro símbolo e o seu significado pode 'aparecer' no seu dia-a-dia aumenta a percepção e o conhecimento empírico sobre o mesmo, ampliando visões. Isso pode ser percebido, por exemplo, ao se 'vivenciar' os arquétipos e simbologias dos oráculos.

Outra forma muito interessante de lidar com os oráculos e sua simbologia é trazê-los para um meio que você domine e/ou conheça bem, como fez o amigo Emanuel J. Santos, já conhecido nosso do blog Conversas Cartomânticas, que traz um novo projeto: o Petit Lenormand em Ponto Cruz, que como ele mesmo define é "uma possibilidade de criação e aprendizado de cartomancia e bordado". Vale a pena acompanhar!

Para aqueles que lidam com oráculos, saber-se próximo - quase 'íntimo'! rs - do instrumento que se utiliza é algo fantástico. Temos praticamente um 'bate-papo' que flui como uma conversa entre amigos... E que tal trazer não só o significado, mas também o símbolo em si para um tema que você goste e criar um oráculo pessoal?É possível utilizar um deck e customizá-lo, como mostra a figura acima, ou ainda proceder com a criação das cartas dentro do tema de sua escolha.


* Experiência pessoal

Sou cartomante e utilizo também como oráculo o Baralho Petit Lenormand. Em cima disso, fiz um deck personalizado, que eu chamei de "Orientalist Lenormand". Ah, sim! Iremos lidar com vários textos neste sentido nos próximos meses aqui no bloguinho, levando o Baralho Petit Lenormand a 'visitar' outros mundos... 

- A imagem que deu origem a carta 18,
o 'Cão', em meu deck pessoal:
pintura "The Negro Master of the Hounds",
de Jean-Léon Gérôme -
Sobre o tema que escolhi, vários me rondam o gosto pessoal e um deles é tão marcante que resolvi unir o 'belo' ao 'aprazível' (rs): sou apaixonada pela cultura e arquitetura antigas da área do Mediterrâneo! Uma viagem dos sonhos para mim é ir da Turquia à Espanha, passando pela Egito, Líbia, Grécia, Itália, Argélia, Marrocos... E passear por todo aquele mar que, segundo conta o conto, a nau Argo e seus heróis um dia desbravaram!

Sou, portanto, fã do Orientalismo. Vale a distinção: o "Orientalismo", em sua tendência ortodoxa, foi uma das teorias criadas em meio as ciências humanas que maior êxito obtiveram em deturpar a mentalidade ocidental sobre o que seria o "oriente", tornando-o exótico, misterioso, problemático e perigoso (2).

Este mesmo termo, entretanto, denomina uma leva de pintores e suas incríveis obras. Para a pintura, o "Orientalismo" é mais amplamente usado para se referir às obras de muitos artistas do século 19, que se especializaram em representar assuntos do "oriental" (3). É neste último sentido a que me refiro.

Foi um ato puro de (re)criação e... Recreação! (com o perdão do trocadilho, rss...) Achar as pinturas que se identificavam com as cartas do Baralho Petit Lenormand me levou numa busca incrível, um deleite aos meus olhos, uma elevação do que cada carta representava.

Talvez você possa usar colagem para fazer suas imagens... Selecione algumas que lhe interessem e tente incorporá-las em seus desenhos. Se você achar que tem veia de artista, faça uma série de rascunhos das imagens primeiro, ou procure materiais diferentes para esculpir, imagine, se lance no inusitado! Desde que funcione para você, é válido: pense no que os arquétipos, no que o simbolismo significa para você pessoalmente. Você pode fazer isso para aprendizado, ou pode inclusive utilizar para a arte da divinação, tanto faz! O importante é que tenha a mente aberta para aprender de formas diferentes.

Pense nestas formas diferentes de lidar com o seu oráculo, tenho certeza de que será uma experiência gratificante. Para mim, foi uma experiência única, bastante divertida, e que eu recomendo!




1 Artigo "Oraculando", publicado também neste blog
2 Wikipedia; Orientalismo
3 Do site do artista E. Cury


Escrito originalmente em 16.04.13
© Todos os direitos reservados.

Oraculando

Benção ou maldição, eu posso dizer que tenho uma certa facilidade em lidar com mensagens que "querem chegar ao seu destino"... Um dom, muitos diriam, mas que sozinho não representa tanto e deve vir sempre associado ao estudo. Dias atrás, enquanto estudava mais sobre o simbolismo do oráculo que utilizo, percebi a alegria que é ter acesso a essa comunicação direta, e me peguei pensando sobre o ato de oracular, entusiasmada - e fato é que a palavra "entusiasmo", em sua origem, é "ter o deus em si"
'Priestess of Delphi' (1891),
de John Collier

O que é um oráculo? Por definição, a palavra designa a "resposta dada por uma divindade a uma questão pessoal através de artes divinatórias. Por extensão, o termo oráculo designa tanto a divindade consultada como o intermediário humano que transmite a resposta, e ainda o lugar sagrado onde essa resposta é dada. A língua grega distingue estes diferentes sentidos: entre numerosos termos, a resposta divina pode ser designada por "khrêsmós", literalmente o fato de informar. Pode-se também dizer "phátis", o fato de falar. O intérprete da resposta divina é freqüentemente designado por "prophêtê", aquele que fala em lugar (do deus), ou ainda "mántis". Por fim, o lugar do oráculo é "kherêstêrion"" (1). Como se vê, um conceito bastante amplo e muito simples.

Várias práticas, ou artes divinatórias eram consultadas: de ossos a lendas de cabeças falantes, passando pelas diversas "mancias" conhecidas até os dias de hoje, muitas são as formas de receber a mensagens dos deuses, do universo, do etéreo... Seja lá como você a "reconheça", rs. Cadeira por muito tempo ocupada somente por mulheres, aquelas que detinham o conhecimento oculto de todas as coisas, hoje em dia muitos oraculistas masculinos representam muito bem o título que detêm. Familias também detinham, antes, o poder único de passar adiante o dom oracular - coisa que hoje ainda existe, mas não delimita mais.


* Lidando com o dom e com o estudo

Qualquer objeto, moeda, cartas, dentre outros, podem dar uma resposta (afirmativa ou negativa, e também outros tipos de respostas) desde que exista um padrão já determinado no sistema de leitura. O ato de interpretar tais respostas e estabelecer sentido, passando adiante a mensagem, é possível por conta da interpretação dos símbolos contidos no oráculo consultado. Um símbolo com sentido é um signo; a interpretação dada pelo oraculista vem atráves de intuições e também do entendimento do signo que se apresenta na hora do jogo. Vem daí o entendimento que, em se estudando a simbologia e os métodos de um oráculo, é possível interpretá-lo.

O dom é manisfestação divina, e geralmente ele nos faz pender para um determinado tipo de "mancia": você escolhe cartas porque se sente mais confortável, e aí talvez se apegue mais ao tarô ou ao baralho comum, ou escolhe runas pelos desenhos lhe parecerem próximos, as moedas por lhe serem mais "chegadas"... E se decidir estudar um oráculo, mesmo sem ter este approach, conseguirá ler as mensagens que irá receber através dele. Claro que ter os dois, dom e estudo constante, é muito bom (rs).


* Papeando com os símbolos

 O estudo traz a consciência, não só do que quer dizer um determinado símbolo, mas de como ele foi elaborado, em que momento da história ele surgiu e como isso tudo influencia na leitura, etc... O que entendemos por simbologia? Como alguns símbolos significam um tanto igual para tanta gente diferente? 

Vamos pensar em um sistema oracular antigo, citado até mesmo em escrítos bíblicos: a oniromancia ou a interpretação dos sonhos. Técnica muito difundida no ocidente e usada desde os tempos mais antigos, foi citada por Carl Gustav Jung (foto à esquerda) em vários de seus trabalhos como sendo uma forma realmente eficiente de analisar a condição da psiquê do consulente. Diz-se que a civilização mais antiga a lidar com os sonhos como presságios foi a egípcia: pessoas pagavam tributos para dormir nos templos e, ao acordar, terem seus sonhos interpretados pela sacerdotisa local. Como entender que, desde aquele tempo até os dias de hoje, sonhar com um determinado símbolo "significa a mesma coisa" que sonhar com ele hoje?

A Psicologia Analítica de Jung foi a que mais contribuiu para o estudo do material simbólico da humanidade. Jung fez várias viagens, conheceu várias culturas e com isso pode vislumbrar uma conexão universal entre os homens, uma herança psicológica construída ao longo da evolução humana. A essa herança ele denominou de inconsciente coletivo. "Os conteúdos do inconsciente coletivo são denominados de 'arquétipos' (tipos arcaicos) que surgem na consciência como imagens simbólicas. Através da concepção de inconsciente coletivo, Jung concebe que todos os homens, primitivos ou modernos, compartilham de um conhecimento arquetípico universal. O inconsciente coletivo rompe com a linearidade espaço-tempo, ampliando a visão do psiquismo para além da simples causalidade".
(2)

Ou seja, o significado do símbolo não vem apenas por coincidência ou fatalidade. Ele se apresenta e traz, em si mesmo, um mundo de  possibilidades de leitura e interpretação. Jung também cunhou o termo "sincronicidade" para descrever coincidências significativas. Ele acreditava que a mensagem que "cai" num jogo oracular através da carta, pedra ou símbolo que escolhemos é inspirada por algo interior que precisa ser expresso ou se manifestar no mundo exterior naquele momento.
(3)

O material arquetípico do inconsciente, de tão arcaico, por muitas vezes não tem sentido factual para o homem de hoje. Ou o sentido se escoou no tempo-espaço, ou se fundiu com seu símbolo criando um signo tão forte que se mantém sozinho, sem precisar de muita explicação. Para os dois casos, é preciso entendimento: no primeiro, para que não se perca sentido, e no segundo, para não limitá-lo.

Vamos exemplificar com um símbolo conhecido: o "cão". A não ser que a pessoa tenha sido mordida alguma vez na vida ou goste mais de gatos como bichos de estimação, podemos quase afirmar que quando ela for questionada sobre os atributos do cão ela dirá que ele é "o melhor amigo do homem". Isso vem desde quando os cães eram selvagens e passaram a ser domesticados, tornaram-se protetores, foram usados de forma errônea sendo levados a praticar a caça como "esporte" (gosto de seus donos), foram trazidos para dentro das casas, e até hoje convivem conosco. O cão, como símbolo, traz os arquétipos de fidelidade e companherismo, mas também de obediência, de amizade, de compromisso, de delimitador e protetor de seu espaço - dentre outras coisas!

É preciso um certo grau de abstração, mas essa mesma abstração deve estar fundamentada no entendimento. Deste modo, a análise e estudo destes arquétipos é de grande importância para o resgate simbólico e para compreensão dos signos que surgem também nos oráculos e, consequentemente, para uma compreensão mais profunda de si mesmo. Uma forma muito benéfica de aprendizado arquetípico é o estudo das mitologias. "A mitologia é o sonhar coletivo dos povos", como nos disse Walter Boechat, médico e analista junguiano. Ele explica que "o mito possibilita a amplificação da situação vivida pelo paciente, possibilitando sua melhor compreensão, uma vez que seus sonhos e fantasias têm a mesma raiz dos mitos arcaicos."


* A intuição como parceira fiel

O estudo simbólico de um oráculo traz ainda a expansão desse inconsciente coletivo, fundindo-se com a mente ativa e tornando-se parte de nós mesmos. Alimentar isso faz valer cada segundo de intuição que venha em uma leitura oracular. Ah, sim, a intuição!... O que dizer daquela voz interior que diz, naquele momento, algo extremamente pertinente, mesmo que pareça contrário ao signo naquele momento?

Sim, estudamos também para expandir a conciência coletiva ao grau intuitivo, que fala conosco através da parte de nós mesmos menos tocada pelo mundo externo. Algumas correntes esotéricas denominam esta parte de "Self Jovem": "É o self mais jovem que diretamente experimenta o mundo, através da percepção holística do hemisfério direito. Sensações, emoções, energias essenciais, memória de imagens, intuição e percepção difusa são funções do self mais jovem. A sua compreensão verbal é limitada; ele se comunica através de imagens, emoções, sensações, sonhos, visões e sintomas físicos."
(4)
 
Por isso a intuição vem, muitas vezes, arrebatadora! Ou, ainda, fica "martelando" continuamente até que seja ouvida pela mente consciente, ou "Self Discursivo". Ao utilizar algum método oracular, ato que lida diretamente com os arquétipos, a intuição se apresenta e faz-se notar. E não duvide dela, não mesmo! Até confirme, mas não duvide: é importante não deixá-la de lado, pois por falar exatamente a mesma língua da simbologia do inconsciente coletivo, a intuição pode nos trazer percepções não notadas anteriormente. Dar a devida atenção faz com que a intuição se torne parceria mais do que fiel do oraculista. Praticando a gente se entende! Assim como num estudo de um idioma, a prática oracular leva a absorvição simbólica e ao desenvolvimento intuitivo.
 

* O resgate do oráculo nos dias de hoje

A "palavra" de um oráculo era extremamente respeitada no mundo antigo. Muitas civilizações nos quatro cantos do mundo utilizavam esse canal de "informação" e conhecimento sobre aquilo que estava oculto ou não era percebido pelo homem comum - fosse ele o chefe de uma tribo, o patrono de uma cidadela ou um dono de cabras... Todos podiam através de um oráculo saber a resposta aos seus questionamentos, fossem estes quais fossem! Cidades se criaram em volta dos oráculos, comércio e intercâmbio cultural se desenvolveram por causa deles. No mundo antigo, as pessoas viviam com os deuses mais presentes e atuantes: ter um local e/ou alguém para receber as mensagens deles era mais do que natural.


'The Wish' (1840),
por Theodor von Holst
O mundo moderno trouxe a desconexão. O esquecimento do que é sagrado (em detrimento do que era tangível) trouxe o abandono e a prática oracular perdeu sentido, foi relegada ao "oculto". Com o novo pensar da humanidade, um (pouco!) mais voltada para as questões internas e etéreas, o ato de oracular ganhou novamente força, pois fala uma língua acessível à todos! Porém, para alguns, a arte oracular ainda não soa a algo confiável, ou é quase banal, "auto-ajuda" demasiada travestida de fantasia, sem muita credibilidade e com muita curiosidade... Poucos (re)conhecem a força mágica e etérica que nos rodeia, e entendem o oráculo como fonte de comunicação.

Para nós, oraculistas, é preciso lutar contra essa perda de importância do oráculo em si, retornando-o às raízes da respeitabilidade. Para se ter respeito é preciso dar-se o respeito: para quem lê para outrem ou para si mesmo, manter-se com ética, profissionalismo e honrando a tradição que o oráculo traz em si mesmo. Estudando e sempre se mantendo aberto a "dialogar" com os símbolos, dando a devida importância ao que lhe é "dito", e resistindo às projeções. Respeitando também a si mesmo, ao dom que possa ter, a determinação que empenhou no aprendizado e as responsabilidades que ser oráculo traz, com os demais e consigo mesmo.

"Ó homem, conhece-te a ti mesmo e conhecerás os deuses e o universo."

— Inscrição no oráculo de Delfos, atribuída aos Sete Sábios (650 a.C.- 550 a.C.)


1 Wikipedia
2 "Os mitos: fontes simbólicas da Psicologia Analítica de C.G. Jung", de Gabriella Gomes Cortes
3 "A Bíblia do Tarô", de Sarah Bartlett
4 "A Dança Cósmica das Feiticeiras", de Starhawk


Escrito originalmente em 11.03.2013
© Todos os direitos reservados.